Gliff, Ali Smith
Regressar a Ali Smith é sempre uma experiência super prazerosa, ao mesmo tempo que, a cada livro da autora, sinto que expando horizontes na maneira como interpreto e vejo a interação humana e a sociedade em que vivemos. Estava curiosa com Gliff, um dos mais recentes romances dela, e parti para a leitura sem conhecimento prévio ou expectativas — na minha opinião, a melhor forma de ler Ali Smith.
Aqui, estamos num futuro relativamente próximo, com contornos de distopia, e começamos a história no momento em que Briar e Rose, duas crianças, têm de se separar da mãe. A mãe fica numa espécie de hotel a trabalhar, e elas seguem caminho com um homem, que eu presumi ser o padrasto, até ao momento em que ele as deixa numa casa para ficarem protegidas e continua sozinho. A partir daqui, vamos acompanhar Briar e Rose numa tentativa de sobrevivência, mas, acima de tudo, numa tentativa de compreensão acerca do que se está realmente a passar à sua volta. Em certos capítulos, Ali Smith faz-nos avançar na narrativa e compreendemos que já estamos alguns anos antes, na altura em que Briar e Rose se separaram. Briar acabou por se infiltrar no sistema, mas nunca esqueceu a irmã.
Most humans haven’t got clever enough to speak the languages of other creatures yet for some reason, she said. I often wonder why. Does it make it easier to control other creatures, or even peoples, us deciding that because we don’t know what they’re saying, what they’re saying doesn’t get to mean anything, or that they don’t get to have a say?
Mais do que uma história extremamente inventiva — que é —, para mim, o estilo de escrita é o que faz com que esta leitura valha tão a pena. Como as personagens principais são crianças, mostram-nos o mundo de uma forma muito diferente, que mistura ingenuidade com descoberta. Ali Smith nunca faz a papinha ao leitor: desafia constantemente, tira-nos o tapete quando começamos a sentir-nos confortáveis. Gliff fala de o que acontece quando marginalizamos certas pessoas na sociedade, sobre os perigos de um sistema altamente capitalista, e sobre o amor que sobrevive a tudo isso.
Só depois, quando já tinha terminado e fui ler coisas, é que percebi que Gliff pode ser considerado um retelling de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o que realmente faz bastante sentido. Deu-me vontade de voltar a ler tudo do início, para ver se entendia as referências, mas para já vou avançar para Glyph, que completa a duologia. Supostamente está e não está relacionado, como Ali Smith muito gosta de fazer (e eu adoro ler).
Há por aí fãs desta autora? Quero conhecer os vossos favoritos!



