Reviews Relâmpago #10
Foi no final de junho que a correria se intensificou: fui para o Porto para assistir ao BABELL, um festival literário de proporções gigantescas para o que estamos habituados cá, rumei à Madeira para uns dias de descanso, voltei brevemente a Lisboa e, depois disso, já fui a Londres e a Dublin. Com tantos comboios e aviões, não me tem faltado tempo para ler. Já tempo para escrever as minhas reviews, enfim, é outra conversa.
Porque não quero deixar de ir registando aqui a minha opinião sobre os livros que leio, fiquem com mais uma ronda de reviews rápidas sobre cinco deles:
The Empusium, Olga Tokarczuk
Ora aqui está uma leitura desafiante, como suspeito que sejam todos os livros de Olga Tokarczuk. Talvez o subtítulo «A Health Resort Horror Story» me tenha desajustado as expectativas para o que iria encontrar nesta história, que pretende ser uma reintepretação d’A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Em 1913, Mieczysław Wojnicz, um estudante polaco, chega a um sanatório no meio das montanhas para um tratamento contra a tuberculose. Ora, o leitor rapidamente compreende — mais depressa até que o protagonista — que a saúde dos pacientes desta instituição não está propriamente a melhorar; em alguns casos está até a piorar bastante.
The Empusium é um livro bastante lento, descritivo em algumas partes e com diálogos que facilmente podem irritar um público mais contemporâneo: Olga Tokarczuk fez de propósito para incluir, nas conversas das personagens masculinas, afirmações machistas e misóginas que foram proferidas, algures no tempo, por homens considerados importantes (D. H. Lawrence ou Charles Darwin, por exemplo). Depois de ter ouvido a autora falar sobre o livro no BABELL, no Porto, sinto que consegui compreender algumas decisões e apreciar ainda mais esta obra.
Orlando, Virginia Woolf
Ainda bem que a minha amiga Pat. mo emprestou, caso contrário, seria um daqueles clássicos que ficaria em lista de espera ad aeternum. Cada livro de Virginia Woolf que leio cimenta a minha suspeita de que ela era uma viajante no tempo: só isso explica que tenha escrito coisas tão vanguardistas para a época. Aqui, acompanhamos Orlando, um jovem que nasce na Inglaterra isabelina e vive mais de trezentos anos. Quando completa trinta, porém, acorda como uma mulher e leva o resto da sua vida de acordo com o género feminino.
Escrito em formato de biografia, com um narrador cheio de personalidade, Orlando desafia papéis de género e celebra a diferença de uma forma inovadora (tão inovadora, que leitores dos dias de hoje continuam a ter alguma dificuldade em seguir a história). Pode não ser uma leitura fácil, no sentido em que exige muita atenção, mas creio que é um clássico incontornável.
Canção para ninar menino grande, Conceição Evaristo
A minha segunda experiência com Conceição Evaristo não poderia ter sido mais diferente da primeira. Sabendo que iria assistir, no BABELL, a uma conversa entre esta escritora e Milton Hatoum, quis ir o mais preparada possível. Este foi, aliás, o livro que me fez companhia na viagem de comboio entre Lisboa e Porto, uma espécie de coincidência engraçada, visto que o protagonista desta história trabalha como ajudante de maquinista nos caminhos de ferro.
Fio Jasmim, o nosso «Don Juan» desconstruído, vai parando em várias cidades e quebrando corações em todas elas (e, em algumas, vai também deixando filhos). Acompanhamos assim este «menino grande», um homem que perpetua a figura do homem que magoa as mulheres à sua volta, ao mesmo tempo que é nelas que encontra colo e amparo. Gostei sobretudo que fosse narrado pelas mulheres da vida de Fio Jasmim, mostrando assim o poder da união feminina e da sororidade.
A Pediatra, Andréa del Fuego
Uma pediatra que não é assim tão boa pediatra, e que não tem muita paciência para crianças, pelo menos até ao dia em que conhece um homem que muda tudo. É esta a base da protagonista de A Pediatra, de Andréa del Fuego, um livro que tinha no meu radar há algum tempo e que pressentia ser capaz de gostar. Não me enganei: adoro protagonistas detestáveis, que vão contra tudo aquilo que é o instinto do leitor, pelo que gostei bastante desta experiência.
Talvez tivesse gostado de ver algumas partes mais desenvolvidas, mas só porque estava a apreciar muito o tempo passado na companhia desta mulher. Pontos também para o final, aberto na medida certa — mesmo como eu gosto.
The Robber Bride, Margaret Atwood
Mais um mês a ler a obra de Margaret Atwood, cumprindo assim o meu desafio de «my year with…». The Robber Bride tem alguns temas em comum com Cat’s Eye, nomeadamente as dinâmicas de relacionamento entre mulheres — um aspeto que, aliás, a autora reforçou durante o BABELL. Tony, Charis e Roz são três mulheres que, de alguma forma, foram manipuladas por Zenia, uma outra mulher que em tempos puderam considerar amiga, mas que chegou a fingir a própria morte.
Tendo lido Cat’s Eye antes, creio que The Robber Bride me impactou menos. Gosto sempre de ver estas dinâmicas de frenemies exploradas em livros, mas sinto que o livro tinha demasiado contexto sobre a vida das personagens, com episódios que não precisavam de ser tão desenvolvidos e me desfocavam da trama central. Ainda assim, se gostarem da autora e da temática, acho que podem dar-lhe uma oportunidade.
O que andaram a ler nos últimos tempos? Já tinham lido algum destes? Contem-me tudo!







