Reviews Relâmpago #8
As rubricas existem e são para se usar — e esta, em que resumo algumas das minhas leituras mais recentes, é-me especialmente útil em alturas em que a vida anda mais caótica e agitada, como é o caso. Tenho lido bastante nos últimos tempos e, na sua maioria, livros muito bons; o grande desafio tem sido ir registando tudo o que penso sobre as coisas que leio.
Por isso mesmo, considerem esta publicação como uma espécie de bloco de notas onde registo os pensamentos essenciais sobre estas quatro leituras:
À Noite os Pés São Frios, Margarida Damião Ferreira
Vou ser honesta: tendo em conta a quantidade de livros que aqui tenho para ler, não teria lido À Noite os Pés São Frios tão depressa se a Margarida não me tivesse convidado para apresentar o livro. Mas ainda bem que aconteceu porque gostei muito de descobrir a escrita da autora. Resumindo: no dia do funeral da mãe, Alice cai num buraco na rua, o que a obriga a passar algum tempo no hospital. Com o prolongamento inesperado deste internamento, a protagonista acaba por fazer amizade com Lurdes, a senhora da cama ao lado.
Através das conversas entre estas duas mulheres — e das viagens ao passado que elas proporcionam —, À Noite os Pés São Frios faz-nos pensar sobre as condições de internamento hospitalar, sobre solidão, sobre envelhecimento e sobre abandono. É uma sugestão especialmente direcionada a quem gosta de narrativas mais reflexivas.
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, Tiago Rodrigues
Adiei esta leitura porque queria ver a peça de teatro primeiro, mas como já sabia tanto sobre o que se passava, achei que não poderia desperdiçar a oportunidade de ler este texto em abril. Para quem não sabe do que se trata: passada num futuro muito próximo, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas conta a história de uma família que, todos os anos, cumpre a tradição de matar um fascista. Assim que chega a idade de ser introduzida nesta tradição, Catarina dá por si a não conseguir disparar. Segundo ela, não haverá outra forma de combater o fascismo?
É uma história poderosíssima, que nos faz questionar a nossa própria forma de luta diária contra o fascismo. Deveríamos ser mais moderados ou radicais? Adorei a experiência de ler uma peça de teatro — algo que não faço vezes suficientes —, e fiquei com ainda mais vontade de a ver encenada. Avisem-me se souberem que vai voltar aos palcos, sim?
Girl on Girl, Sophie Gilbert
Tenho estado a pensar se devo considerar este livro uma desilusão, tendo em conta que, muito provavelmente, eu é que ia com as expectativas desalinhadas para a leitura. Girl on Girl: How Pop Culture Turned A Generation Of Women Against Themselves reune exemplos da cultura pop dos últimos trinta anos para deixar a questão: porque é que o feminismo parece mais frágil do que nunca? Sophie Gilbert explica que não é um fenómeno dos dias de hoje e que todas as vagas do movimento feminista sofreram do mesmo mal, especialmente desde a ascensão e a democratização da pornografia.
Talvez seja porque já li vários livros semelhantes — ou porque esperava mais profundidade relativamente à questão de como a cultura pop e os media põem as mulheres umas contra às outras —, mas a verdade é que não senti que este livro me acrescentasse muito. Além disso, senti pouco trabalho nesta análise: há várias referências (demasiadas, na minha opinião) e pouca exploração de cada uma delas. Ainda assim, pode ser um bom ponto de partida para quem quiser iniciar-se nestas leituras.
Ter ou Não Ter Filhos, Ruth Manus
Não há fome que não dê em fartura, por isso aqui está mais um livro de não-ficção lido recentemente. Tive a sorte de receber a Ruth no Livra-te para falarmos de livros que desafiam o conceito de maternidade, entre eles este Ter ou Não Ter Filhos. Nele, analisa aquela que é, potencialmente, uma das decisões mais importantes na vida de uma mulher, deixando uma coisa muito clara desde o início — é normal e importante haver dúvidas nesta tomada de decisão.
Falando do impacto físico, mental, financeiro e social de ter filhos, este livro convida a uma reflexão mais profunda sobre esta decisão. Gostei muito que misturasse dados concretos com experiências pessoais (da autora e de pessoas com quem conversou), e parece-me uma leitura relevante para quem gosta de pensar sobre estes temas.
Podem ouvir mais sobre este e outros livros no episódio que gravei com a Ruth:
Agora, contem-me: já leram algum destes livros? Se sim, o que acharam?






